Uma coisa que qualquer pessoa precisa saber antes de ir pra China é que lá só se fala chinês! Parece óbvio é claro, mas você não tem noção de quanto isso te impacta até você chegar lá. Não adianta nada você falar inglês, francês, espanhol, alemão ou até mesmo esperanto, eles não vão entender nada. E por nada, é nada mesmo! Até palavras quase internacionais como stop, water, ten ou pasmem, Internet, não são compreendidas pelo chinês. Uma vez lá, você pode falar português com eles que dá na mesma. E como a gente só sabia falar Ni hao (Oi) e Xièxiè (obrigado) em chines vocês conseguem imaginar como foi desesperadora a comunicação né?

Ninho de Pássaro
Com isso o jeito era apontar e torcer pelo melhor. No planejamento tudo parece que vai dar certo. Você imprime direitinho o endereço do hotel em chinês (inclusive na escrita de hánzí), chega num taxista, aponta pro papel com toda cara de pimpão e o cara olha o papel e te faz uma pergunta. É aí que fode tudo. Você só consegue apontar de novo pro mesmo papel enquanto o cara desembesta a falar em tom de interrogação e manda um “OK?” no final da frase. Qual outra opção que você tem além de dizer “OK!” e começar a rezar pra Padim Padre Cícero te proteger nesse país de loucos.
O engraçado é que essa barreira linguística não impede dos chineses a falarem com você. Eles simplesmente falam como se você entendesse tudo e fazem cara de bobo alegre quando você aponta pra um papel avisando que não entende chinês, o que não os impede de continuar falando também não. Além disso eles olham pra você como se fosse de outro mundo, pegando o bilhete de trem da sua mão pra ver pra onde você vai, ficando de papagaio de pirata pra ver o que você está lendo, o que está escrevendo no celular ou o que está fazendo. Te olham de cima embaixo como um pedreiro olha pra Mulher Melancia quando ela passa de fio dental indo pra praia na frente dele. A sensação é que você é um ET. Pensei até em falar “Venho em paz, me leve ao seu líder” mas minha mensagem do outro mundo ficaria perdida na tradução.
Isso é claro, junto com todo o perrengue que passamos, é o que faz da viagem ainda mais divertida. Aliás, a viagem foi apelidada de Perrengue Tour desde o início já que decidimos que não pegaríamos hotel nas 3 primeiras noites pra economizar (apesar de tal ato estar listada na minha Murtaugh List – vide post abaixo). A primeira noite seria passada no avião (ok, até aí normal, mas seriam apenas 4 horas e sono já que o vôo é de 5h45m e tem o tempo de decolagem, aterrisagem e comida) mas a 2a e 3a seriam passadas num trem, no trajeto Beijing-Datong-Beijing que fariamos logo de cara. Por precaução resolvemos pegar um hotel pelo menos na 3a noite já que a programação era de chegar de volta a Beijing as 4 da manhã e com hotel poderiamos ao menos dormir até umas 8. Nem parecia uma completa má idéia se não fosse por 1 ponto: onde tomaríamos banho.
O primeiro desafio do banho conseguimos vencer facilmente. Chegando em Beijing arrumamos um lugar onde dava pra tomar banho logo no aeroporto. Seguimos pra estação de trem pra comprar os bilhetes pra Datong apenas pra descobrir que os trens estavam quase todos lotados. A nossa previsão era comprar um trem as 23 horas mas só conseguimos um as 3 da manhã. Fomos ainda deixar nossas malas no locker da estação e vimos a cara de desespero da atendente quando apontamos pra um armário e perguntamos “how much?”. Como Deus proteje os bêbados, as crianças e os loucos (e nós encaixamos no 3o caso) a única pessoa que falava ingles dentro de 1 bilhão e meio de pessoas na china estava contratando um locker na hora e nos ajudou a informar o preço e o horário de funcionamento do locker.
No primeiro dia fomos ao Palácio de Verão(Summer Palace) do Imperador que é tipo uma Quinta da Boa Vista de Beijing só que maior e bem, mais antigo. Na entrada não conseguimos achar o portão e um pouco perdidos no meio do nada resolvemos perguntar pra única chinezinha que passava por ali apenas. Usando o dialeto Tarzan, muito útil em qualquer viagem a Ásia, mandamos um “Ni hao! Summer Palace?” apenas para ouvir “I’m from Austria!”. Fail! O Palácio é legal e vale a visita, mas é mais gostoso se visto como um parque onde você pode andar sem hora pra ir embora, tomar um sorvete, ler um livro de repente. E tem os templos que são divertidos.
A noite fomos no centro olímpico ver o lindo estádio do Ninho de Pássaro e o Cubo D’água. Até hoje a área fica lotada. Não sei se é só pra mim que curto esporte e estádios mas acho que vale muito a pena, principalmente o Ninho de Pássaro. É lindo de dia e também com a iluminação a noite. Ao lado tem um prédio da IBM em formato de tocha olímpica, bem legal. Dali fomos de volta pra estação pegar as malas pois os armários fechariam e terminamos a noite matando tempo no bar do terraço do Emperor’s Hotel que acabou não tendo nada demais, mas sendo um lugar bem agradável e não caro pra ir.

Noite de Sono na Perrengue Tour
De volta a estação por volta da 1 da manhã notamos que haviam pessoas dormindo em todos os lugares que inclui o chão, a rua, qualquer coisa que se pareça com um encosto. A fila para o trem parecia inscrição pra emprego de gari no Rio de Janeiro. Milhares de pessoas estranhas amontoadas em um lugar que lembrava de longe o Catumbi(região em volta do sambódromo) ferozes pra conseguir um lugar no trem. O primeiro trem que saiu de madrugada levou metada da mulambada e eu apenas dei graças a deus por não estar indo pro mesmo lugar que essas pessoas. Apesar da cena dantesca, o sono, de quem dormiu cerca de 4 horas sentado numa poltrona de avião já vencia a batalha contra as pernas cansadas e estávamos seriamente cogitando deitar naquele chão de concreto sujo mas acabamos por cochilar num barzinho que exigia que consumíssemos, o que fizemos com prazer: uma coca cola e quatro copos por favor!
No trem compramos uma cama para podermos dormir em um vagão privado, mas foi com alguma surpresa, e pesar, que descobrimos que o vagão privado era privado pra 60 camas, empilhadas beliches de 3 lugares cada no que parecia ser um misto de alojamento militar com prisão. Os colchões eram tão limpos quanto o chão da estação (eu coloquei minha toalha pra cobrir pelo menos o travesseiro enquanto outros optaram por dormir com a cabeça na mochila) e cheio de figuras bizarras que nos encaravam como os novos detentos do presídio. O Victor tinha certeza que seria assaltado naquele trem. Se algum dia eu corri o risco de ser esfaqueado e largado pra sangrar até a morte, esse era o dia.
Mas é aquela coisa né, o sono era tão grande que em 5 minutos todos dormiam, alguns já abraçados no travesseiro ou enrolados no edredom que parecia(fui bondoso aqui, na verdade eu tenho é certeza) usado por algum chinês que deitou suado na nossa cama antes de embarcarmos(o trem vinha de outra cidade e Beijing era apenas uma parada no meio do caminho). E chegando em Datong ainda não tínhamos onde tomar banho(sem hotel, lembram?). Era a Perrengue Tour dando suas caras na segunda noite.
Apesar do perrengue, Datong é fantástica e vale o sacrifício. Na chegada da estação tivemos o perrengue básico do idioma mas meu guia da China (Rough Guide, sempre) já ensinava onde ir e o que fazer e conseguimos um agente de viagem da CTIS(eles ficam no hotel que eu acho que chama Tajita ou algo parecido, num beco de uma rua a direita da estação) que arrumou um tour privado pra gente (o busão deles já tinha saído), lugar pra tomar banho, deixar as coisas e ainda foi comprar passagem pra gente voltar pra Beijing. No final, não tinha passagem de trem e ele arrumou alguém pra nos levar de carro (eram 6 horas de trem mas apenas 300km de carro).

Budão de Datong (1 de 1000)
Datong tem basicamente 4 coisas pra ver, sendo 2 delas imperdíveis. Das que não fizemos questão de ver havia o pedaço da Grande Muralha que passa pela cidade (já todo revitalizado e sem nada do original, parece que foi construído ontem) e a parede dos 9 dragões que deixamos pra ver a original na Cidade Proibida. As imperdíveis são os Hangling Temples(literalmente Templos Pendurados), que são templos construídos do lado de um penhasco e escorados por madeiras que você tem 100% de certeza que vão cair e as Yungang Grottoes que são grutas em montanhas lotadas de enormes esculturas de Buda na pedra. As esculturas são impressionantes, seja pelo tamanho, pelos detalhes ou pela quantidade, todas feitas na própria montanha. Lembrei muito da minha irmã em Datong, mais do que em qualquer outro lugar da China, pois achei que ela ia adorar as grutas.
Na volta para Beijing naquela noite experimentamos um pouco do trânsito lunático da China. Nosso motorista ziguizagueava na pista, cortando pela direita, esquerda e acostamento se necessário, sem nenhum problema. Quando havia engarrafamento na pista ele simplesmente pegava a contra-mão da pista mão dupla (e única de cada lado) e seguia como nada tivesse acontecido e deixava que os carros do outro lado desviassem dele. Em algum momento ele chegou ao cúmulo de ultrapassar um caminhão que também estava na contra-mão usando o acostamento da contra-mão pra isso. Direção super defensiva. Mas como vocês já sabem que Deus protege os bêbados, crianças e loucos, nada aconteceu com a gente e chegamos normalmente no nosso hotel em Beijing. Seria nossa primeira noite em uma cama de verdade na viagem, uma cortesia da Perrengue Tour.
continua na Parte 2(…)